29 gennaio 2020
Por

A lgreja junto às pessoas idosas

P. Moises Lucondo O.F.M. Cap.

O IDOSO EM ANGOLA

 Por Fr. Moisés Lucondo, Ordem dos Frades Menores Capuchinhos 

No Encontro “La ricchezza degli anni”

Em Roma a  29 de Janeiro de 2020

Eminência Kevin Cardeal Farrell

Digníssimo Prefeito do Dicastério para os leigos, a família e a vida

Irmãs e Irmãos

Paz e Bem!

Agradeço o convite que Sua Eminência me enviou para participar neste encontro.

Foi-me me pedido que nesta assembleia apresente o trabalho que desenvolvo no atendimento aos idosos na Arquidiocese do Huambo, concretamente no Centro Mártires do Amor.

Foi sempre meu desejo dedicar-me ao cuidado pastoral mesmo antes, durante e depois da minha entrada no Seminário.

Antes,  como jovem funcionário publico, era uma das acções que realizava com os meus amigos.

Durante: muitas vezes visitava os idosos, mesmo sem ter algum material para lhe dar.

 Depois: já ordenado e colocado na casa de formação, pedia aos formandos para realizarmos visitas de apoio aos mais necessitados.

Ao ser Pároco de Nossa Senhora de Fátima, na Arquidiocese de Luanda, procurei  criar a primeira cozinha para os mais necessitados da cidade, onde lhes era servido o pequeno almoço e almoço e Segunda-feira a Sábado. E aí surgiu-me a ideia de construir um centro de acolhimento. Procurei encontrar um terreno para nele realizar o sonho tanto desejado. Mas não fui bem sucedido, e fui colocado à frente dos irmãos da minha Província Capuchinha em Angola.

Terminado o tempo de animação dos Irmãos Capuchinhos em Angola, retomei a  com o consentimento do Ministro Geral, Fr. Roberto Genuín, a concretização do sonho da construção dum centro  de acolhimento para idosos abandonados, acusados de feitiçaria, sem família e vítimas de várias espécies de violência ,no Huambo, que graças ao apoio interno e externo se concluiu com êxito.

Porque Mártires do Amor? Sim.

 Não só pelas dificuldades que encontrei de quem me apoiasse na execução do mesmo, mas também pelo acidente que sofri num dos dias, durante as obras de construção, encontrando-me só. Numa distancia de menos de dez metros do carro, para  chegar ao mesmo levei  mais de vinte minutos , e chegado a fraternidade , para descer demorei mais de uma hora. E um dos irmãos da fraternidade publicou nas redes sociais, que o Frei Lucondo, andaria só por um milagre. Mas durante a noite chorei e orei, pensando no centro e de manhã às seis horas e trinta minutos encontrava-me no altar a celebrar. E ainda no próprio  dia a dia com os idosos, sem meios financeiros para os manter mas sim confiando na Divina Providencia. Levou-me a dar-lhe o nome de Centro

Mártires  do Amor.

Com a capacidade de acolher 60 idosos. Assistimos até ao momento 20 internos e mais de 50 externo só com refeição.

O idoso em Angola

Angola país Africano, com um território de mais de 1.247.000Km2 com a população de 28.400.000 de habitantes(Censo de 2014).

Apesar da população angolana ser muito jovem, os idosos mesmo não sendo muito numerosos não são atendidos  nas suas necessidades básicas.

Devido às constantes dificuldades originadas pela guerra, pela falta de estruturas de assistência a nível nacional as dificuldades económicas.

Maus tratos, solidão, acusações de feitiçaria, angústia e baixa estima são alguns dos sinais do "calvário" daqueles que, por dezenas de anos, alimentaram o sonho da velhice tranquila.

Os idosos passam por verdadeiro drama, muitos deles sem afeto, apoio e acompanhamento dos familiares, por quem um dia juraram dar a vida.

Este cenário regista-se nos lares de acolhimento e em algumas famílias  onde, diariamente, dezenas de idosos são "flagrados" com olhares melancólicos, denotando falta de esperança e tendência suicida.

A mesma realidade vive-se nas ruas e no principal núcleo de preservação de valores morais: a família, onde a figura do idoso começa a estar cada vez mais ofuscada.

Os idosos tornaram-se "fardo pesado" para muitas famílias no país, que tudo fazem para se verem livres dos seus antigos "heróis", a qualquer custo.

Apesar de ser um grupo com necessidades especiais, fundamentalmente pelo estado físico e mental debilitado, os idosos continuam relegados para plano inferior.

A situação preocupa a sociedade e o "grito de socorro" dos idosos já é quase generalizado.

Para minimizar o problema, o Governo criou 17 lares de terceira idade, em várias províncias do país, que controlam, até ao momento,  uns  900 idosos. Segundo os dados de Novembro de 2019.

O Moxico é a província com o maior número de lares de acolhimento (quatro), seguindo-se o Huambo (três), Cuanza Sul (dois) e Luanda, Huíla, Bié, Benguela, Cuando Cubango, Lunda Sul, Namibe e Uíge (com uma instituição cada). Muito desses só têm o nome, mas de facto não o são como diremos a diante.

No mesmo sentido, o governo  fez aprovar a Lei da Pessoa Idosa, que vela pelos velhos desprovidos de atenção familiar, em situação de abandono e isolamento.

Para acudir esse grupo social, o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher tem  um projecto de apoio aos idosos nas comunidades e nos lares, iniciativa que consiste na atribuição de cesta básica. Que não se sabe a que idoso.

Outra iniciativa do Governo, em prol dos idosos, é o Jango de Valores, criado para sensibilizar as famílias angolanas sobre a necessidade de proteger as pessoa da terceira idade, que celebram, a 30 de Novembro, o Dia Nacional da Pessoa Idosa.

Trata-se de uma efeméride instituída em 2005, por Decreto do Conselho de Ministros, publicado no Diário da República Nº 4, para reflectir sobre a realidade dos idosos.

Queixas nos lares de idosos.

“Apesar das medidas, em Angola os idosos continuam a queixar-se de desrespeito.

No lar de acolhimento do Beiral, por exemplo, 103 idosos vivem dias difíceis e denunciam haver ofensas verbais e maus-tratos por parte dos vigilantes e os demais.

Segundo os idosos de  centros  de acolhimento  do Governo, "os dias são ainda mais negros para as pessoas com limitações físicas, mentais e oftalmológicas, que necessitam de cuidados especiais, até para urinar e defecar".

Entre várias queixas, o idoso, que ainda apresenta bom porte físico e lucidez mental, destaca a má qualidade das refeições. "Muitas vezes, nem o sabor se consegue sentir".

Apela, por isso, ao reforço da fiscalização do Estado à actividade do lares, onde vários idosos se queixam de patologias, como hipertensão arterial, depressão, reumatismo que são próprios da idade e  tuberculose que muitas vezes é fruto de má nutrição.

A falta de afecto familiar

“O calvário dos idosos não é vivido apenas nos lares de acolhimento. Mesmo em casa, junto de familiares, há quem se diga abandonado, sem amor e carinho, embora o seu sacrifício seja vivido ao lado de um parente de sangue, antes de ver os seus bens "usurpados" pelos próprios filhos e de ser acusado de práticas de feitiçaria.

 A mesma história de dor e sacrifício vive o idoso Manuel, 82 anos. Sem muita agilidade para locomover-se, reside no bairro do Malueca (Cazenga), numa casa de um quarto e sala, sem as mínimas condições básicas.

O idoso vive com uma neta e uma filha que aparenta ter entre os 40 e 49 anos. A mesma dedica parte do tempo em casas de venda de bebidas alcoólicas, deixando os cuidados do pai à mercê da filha menor de 15 anos.  

Por falta de força nos membros superiores e inferiores, muitas vezes o idoso, pai de seis filhos, faz as necessidades biológicas na sala onde dorme, em recortes de panos envelhecidos, permanecendo muitas vezes com os dejectos por mais de cinco horas.

A limpeza corporal só é feita depois do regresso da filha, situação que deixa o idoso com desgosto da vida. Velho Manuel lamenta a ausência e os cuidados dos restantes filhos, que diz já estarem formados e alguns bem posicionados na sociedade. Falta nos tempos modernos a consciência de que a idade avançada  é um processo biológico, psicológico e social que remete a pessoa à dependência.”( ANGOP 30.12.2019).

E que um idoso abandonado pode desenvolver distorções cognitivas que levam à depressão, prejuízo na qualidade de vida e pensamentos suicidas, devido ao desprezo.

o papel social do idoso

A forma como este papel foi sendo deslocado na sociedade tradicional africana, após o processo de pós-independência, traçando assim um novo perfil identitário para estas pessoas dentro da estrutura social da África. Por essa razão, consideramos relevante observar o descentramento dos sujeitos idosos ao chegarem ao ambiente citadino e se depararem com realidades tecnológicas não experimentadas por eles antes, na aldeia. Assim, denotamos, em nossa análise, a repercussão que estes aparatos, bem como os espaços físicos cidade e aldeia, ocasionam maneiras diferentes de valorização do idoso dentro de suas relações familiares. Depois do fenómeno pós- independência, quando os processos de comunicação de massa, ou seja, a introdução de artefatos tecnológicos como a tevê e o rádio alteraram a maneira como o idoso passou a ser “enxergado” ou valorizado pelas pessoas de outras faixas-etárias ou mesmo dos seus familiares, especialmente no contexto urbano. Antes da inserção desses aparatos tecnológicos, o idoso era visto como uma fonte de sabedoria e, por consequência, digno de atenção redobrada por parte das outras pessoas, visto que todo o aprendizado e experiências já vividos pelo ancião eram ensinados aos mais jovens com o intuito de as novas gerações propagarem os hábitos comuns da comunidade. Depois que “interferências mercadológicas e tecnológicas” entraram no país, o idoso perdeu um pouco seu lugar de representatividade e os objetos de comunicação de massa, além do consumismo exacerbado, passaram a ser o “centro das atenções” dos que antes tinham na figura do idoso a fonte de informações, estas absorvidas através do acto de contar oralmente as estórias, Vale frisar que o nosso intuito neste trabalho não é generalizar a questão da modernização como sendo algo ruim para a África, ou ainda afirmar que a entrada de objetos tecnológicos foi de um todo maléfica para alguns cidadãos africanos , mas, sobretudo, enfatizar que estes instrumentos e os valores pautados no consumismo mudaram o papel social do idoso em algumas sociedades tradicionais. Na cultura africana, principalmente antes dos projetos de modernização, o idoso  tinha um lugar de destaque no que diz respeito ser ele o guardador das tradições, e do conhecimento.  Nesse sentido, o indivíduo idoso tinha a incumbência de repassar os conhecimentos de ordem existencial e espiritual, próprios do seu povo, às demais pessoas da comunidade a que pertencia. Esses saberes eram geralmente passados oralmente aos mais jovens e às suas famílias, a fim de sustentar a identidade do povo, por meio de tradições, modos de vida e de cultura disseminados na comunidade durante décadas. Assim, junto ao amplo conjunto de sociedades tradicionais africanas que esposaram a oralidade, a transmissão da herança cultural tornou vital a importância do elo que une o indivíduo à palavra. É pela palavra que se reconstitui a história tradicional de um povo. Além disso, a própria coesão da sociedade também depende do valor e respeito que impregnam a palavra (SERRANO e WALDMAM, 2008, p.145-146).

Na esteira desse raciocínio, verificamos que a idade é um elemento muito importante, visto que, diferentemente do que acontece em outras sociedades em que aquela se configura como um factor de exclusão do idoso, na sociedade africana tradicional, ela é justamente sinónimo de acúmulo de conhecimento e experiências vividas, projetando-se assim como um elemento de status para os idosos  dentro de sua categoria social. Conforme pontua Fonseca (2008, p.138) sobre a velhice na África:

“Aquele que representa o saber da comunidade, o contador, o griot, está inscrito numa tradição em que o ‘ser idoso’ e o ter conhecimento aprofundado das histórias dos antepassados são elementos que valorizam o indivíduo no grupo a que pertence”.( é assim que uma pessoa idosa, se comete uma falha, a repreensão é: nem parece mais velho),  Nessa óptica, assinala-se que sinais corpóreos inerentes à maioria dos indivíduos idosos, como enrugamento da pele e aparecimento de cabelos brancos, não atuam como fatores excludentes nas sociedades africanas tradicionais. Pelo contrário, esses sinais conferem um nível de importância dentro da categoria social dos anciãos, haja vista, nessas sociedades, o poder da palavra ser mais importante do que a força de trabalho. Nas culturas que delegam ao idoso o poder de alterar, com sua palavra sábia, os acontecimentos do mundo, o corpo, com o passar dos anos, torna-se indiferenciado, e a idade avançada  é acolhida com naturalidade. Os sinais de idade não são percebidos como degradação ou a partir de preconceitos que denigrem a passagem do tempo. Esses sinais são venerados juntamente com as palavras do ancião, pois testemunham experiência e sabedoria.

Aqui com os organizadores deste encontro, acredito que a idade é uma grade riqueza. E com todos os idosos agradecemos a realização deste encontro que nos servirá para despertar nova mentalidade.

Agradecemos ao nosso Deus pela inspiração, à Igreja pela organização deste painel deste evento; e aproveito em nome dos idosos de Angola em particular, de Africa  em geral para gritar bem alto como o fez Rosa Korbfeld-Matte em nome das Nações Unidas em Moçambique, anos atrás: defendemos a intervenção urgente da Igreja e dos Governos Africanos, na luta contra a violência a idosos, das acusações de feitiçaria, e que haja actos concretos a favor da pessoa idosa. E as congregações e institutos religiosos, fundados na Europa, na América, na Ásia e na África a favor do idoso, que postos no nosso continente, mudaram de carisma, que voltem à fonte pelo qual o fundador(a) se inspirou.

Bibliografia Consultada

 COUTO, Mia. Sangue da avó manchando a alcatifa. In: Cronicando. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

ELIAS, Norbert. Trad. Plínio Dentizien. A solidão dos moribundos seguido de envelhecer e morrer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 103p.

 ESCOSTEGUY, Ana Carolina D. Identidades culturais: uma discussão em andamento: In: Cartografias dos estudos culturais – uma versão latino americana. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p.139-184.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Velho e velhice nas literaturas africanas de língua portuguesa. In: Literaturas africanas de Língua Portuguesa: Percursos da memória e outros trânsitos. 1.ed. Belo Horizonte: Veredas e Cenários, 2008. p.131-149.

 GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Juiz de Fora: EDUFJF, 2005, p. 13-69.

 HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tadeu Tomaz da. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 7. ed –Petrópolis, RJ: Vozes, 2007. p.103-131.

SERRANO, Carlos, WALDMAN Maurício. A África Tradicional. In: Memória da África em sala de aula. 2ed. São Paulo: Cortez, 2008. p.126-145.

ANGOP. 30 de Novembro 2019